Caía uma lágrima de meu olho direito, era de amor. De uma forma mágica ela caiu e não se esparramou, se transformou em mulher, minha lágrima de amor. E de tão grande que é, Deus abençoou e me enviou as aguas doces de Oxum pra me ensinar do amor.
As lágrimas doces de Deus se escorrem pelas montanhas vistosas e se encontram no mar, me disse ela, e o mar é um só...
Essa menina lágrima, de olhos bem verdinhos pra chorar, era toda ela de amor feita, forjada no aço das paixões impossíveis e dos laços inquebráveis da amizade, o mais puro amor. Era tão doce que seria impossível lhe provar, era tão suave que flutuava dentro de si mesma. E soluçava, tão assim baixinho que seu pranto era como o orvalho que cai nas matas e beija as folhas de Jurema, a árvore sagrada.
Então, num movimento rápido, passou a dançar...
Como se fosse o Sol, brilhava em si todo fulgor da vida, e era a própria vida impregnada em mim que me fez dançar também, rufavam tambores angolanos de um lugar qualquer, e numa negritude inconfundível comecei a sambar.
E o samba assim, como delírio, me fez passear por todos os meus dias, relembrar as harmonias dos meus choros infantis, ai que saudades de quando se chorava por tão pouco, por sono ou fome somente.
Mas o samba se acabou, a noite chegou e minha lágrima parecia tão triste.
Tomou minhas mãos nas suas e se orvalhou numa brisa.
Enquanto eu procurava senti-la ainda, me soou aos ouvidos uma canção:
Vai, e segue em frente meu amor
Que o teu amor é tão puro quanto belo
E ilumina tudo aonde passa
Vai meu amor, que o dia acaba e outro começa
E os amores se vão entre as folhas
Mas o coração permanece nas raízes
Vai, começa teu dia com outras histórias
Que o amor maior ainda
Recomeça sempre em uma eterna ciranda
Canta, canta e canta
Que o amor, como criança.
É lágrima de esperança.
Esse pequeno conto vai pra uma menina que é toda amor, tão linda que parece uma lágrima, uma lágrima de Oxum.