Hoje meu São
Jorge foi embora. Caminhou serenamente pela via inundada de gente e carruagens
automotivas aceleradas. Foi-se. Sob o sol de outono morno e humilde, meu
cavaleiro deu-me as costas douradas e partiu, rumo a outras aventuras.
Quantas vezes
mergulhamos juntos no mar, abençoando-nos. Quantas vezes enfrentamos os sabores
e dissabores da vida. Unimo-nos no sangue e no mel de todo o prazer da vida, e
nas lágrimas amargas que ela nos traz. Ungimo-nos no suor da batalha do dia a
dia e carreguei-o em mim como fiel guerreiro, em minha penosa labuta.
Meu São Jorge
dourado, onde estás? Será que caminhas hoje em outras couraças? Ou foste
convertido pelo fogo maldoso em outro Santo qualquer. Como pudeste te apartar
de mim assim tão serenamente? Cansaste de meu colo e minhas costas, meu grande
protetor? Ou mesmo consideras que hoje não pertenço mais a ti como protegido? Sei
que hoje vi meu grande amigo ir embora, numa rua ensolarada, tão rapidamente
que não pude fazer nada, nada.
Foste forjado
para mim, e a mim entregue pelas mãos do mais sincero amor, mas foi embora
pelas mãos do roubo, assim como se foi também a própria amada, que num dia
ensolarado partiu, e me deixou como única lembrança uma medalha dourada de um
santo protetor.
Que posso dizer agora que não o tenho mais sobre meu coração?
Posso afirmar que o tenho dentro do meu coração!
