quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Ensaio sobre o amor e a amizade


Um grande exercício

Falar do amor mais puro, para mim, é um exercício muito grande. Será como descrever todas as estrelas do céu, ou mesmo todas as moléculas que compõe a maravilha do corpo humano num só momento, numa só folha.

Contudo, corajoso, me entregarei a este esforço, pois ontem li algo que me despertou tal vontade deste relato. Li assim num livro ficcional, sobre as palavras de Cristo:
“A amizade transcende o significado da obrigação e o serviço de um amigo para outro jamais deve ser qualificado como sacrifício. O Mestre vos ensinou que sois filhos de Deus. Chamou-vos irmãos. E agora,  antes de partir, vos chama seus amigos” (J. J. Benítez; Operação Cavalo de Troia II)

Apesar de claramente se tratar de uma ficção, esta afirmação bem casaria com o exemplo máximo de Jesus, de amor ao próximo, de caridade e de entrega.  Durante milênios nos matamos e sofremos em busca do amor perfeito. Shakespeare e seus dois apaixonados nos ensinaram o trágico fim de um amor incondicional. Porém se ambos os enamorados se entregassem a simplicidade da amizade em primeiro lugar ante a paixão fugaz, teriam certamente encontrado saída melhor e haveria um outro final nessa peça que a tantos fez chorar.

O amor e suas pseudo-formas.

O amor, por si só, se converteu sempre no maior dos mistérios humanos. O amor foi dissecado e separado em partes; converteu-se em amor fraternal, amor materno, amor Platônico (o mais execrado dos amores e talvez o que mais se aproxime da perfeição, por princípio). Difícil para mim é compreender que haja formas diferentes de amor, uma vez que o amor é algo que se sente, não que se entregue ou se receba, como querem alguns. A própria dor é uma só, mesmo se sentindo de formas diferentes e de diferentes origens: Dói-se por agressão, por doença, por ódio e até por amor, mas a dor é uma só. Deveria ser assim com o amor também.  

O amor é o que se sente, e suas formas são a representação social da relação com o objeto amado. Fisiologicamente entendemos que o amor está relacionado, no campo dos neurotransmissores, a três substancias (Ocitocina, Dopamina e Vasopressina) que são liberados por estímulos ainda inexplicáveis para a ciência. Diferentemente é a paixão, sinalizada no sistema nervoso central pela presença de altas concentrações de Feniletilamina e Serotonina, que estão relacionados a estímulos sensoriais.

O amor eleva o homem, torna-o melhor.  O amor é abstrato e pessoal, o estímulo para o amor pode ser material ou não (podemos amar uma ideia, por exemplo). Sob a visão espiritualista, o amor é a condição permanente do Cristo e, assim sendo, quando o espirito humano se eleva a esta condição se une à própria essência da Divindade. O amor transcende, retorna nossa humilde situação de seres materiais e instintivos a nossa origem Divinal.

 Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o Amor.” (I Coríntios; 13-13)

De tanto ler a belíssima carta de um homem verdadeiramente amante da criação e da fé, entendo que se a fé e a esperança nos elevam a proximidade de Deus, o amor nos une inseparavelmente a Ele.

A amizade e o Verdadeiro amor.

Certo de que o amor é o máximo do sentimento humano, que poderei dizer da amizade. Não há como fugir da própria etimologia da palavra, que por si só já descreve todo o significado do que venho demonstrar. Dentre as origens discutidas, a mais confiável é que tal palavra  advenha do vocábulo Latino, Amicus, e deste também é derivado o verbo “amo” (amar, gostar de). Ser amigo, portanto, é estar no estado de espírito puro do amor. Quando se ama a algo ou alguém, está-se no momento do amor, vive-se o estado da união momentânea com o Pai ou mesmo sob a influência de simples substâncias em nosso sistema nervoso central. Porém quando se é amigo, este momento transitório se perde e torna-se eterno, porque o amigo não está amando, o amigo É amigo.

Tamanha ignorância nossa, de tão subordinados ainda à condição de seres materiais, que elevamos o estado de amante para a máxima evolução de nossos corações, enquanto relegamos a condição amigos um estado natural, simples. Mal sabemos que a amizade é, por fim, a evolução do amor verdadeiro. Basta que observemos o próprio matrimônio (exemplificação unânime do amor em nossa sociedade) para percebermos que o que diferencia o amante do amigo são condições que se perdem com o tempo. Observem os esposos que vivem mais de cinquenta anos em casamento feliz, veremos ali nada de diferente dos costumes de dois amigos infantis que se reconhecem numa simples brincadeira de roda.

A falência do amor romântico dá-se pela destruição do ser idealizado na pessoa amada. Quando desejamos uma mulher ou um homem, através do instinto e dos costumes aprendidos de nosso inconsciente coletivo, elaboramos uma figura que se enquadre perfeitamente no modelo que procuramos. Beleza, caráter, sucesso e riquezas são alguns dos inúmeros fatores que nos levam a apaixonar primeiramente (lembremos, paixão, do grego, vem de Pathos, mesma origem do vocábulo Patologia, ou doença). Num segundo momento, poucas vezes realmente vivenciados, tal paixão se converte em amor quando o outro corresponde em maioria nossas expectativas ou as supera com novas condições ainda não experimentadas. Com a amizade não funciona assim. Amigo não se conhece, se reconhece. É muito difícil descrever o momento exato do inicio de uma amizade, por sua transcendência, sua eternidade. E mesmo quando há a separação ou afastamento de um amigo, nunca se desconstrói verdadeiramente o laço, sempre se espera de um amigo um ato de redenção por qualquer falha. Ao amigo se perdoa infinitamente mais do que ao enamorado, porque do amante falido já se esvaíram as paixões materiais, enquanto do amigo sempre existirá o laço que eterno de união que é a própria amizade.

Somos muito mais tolerantes para com nossos amigos. Quem nunca teve um amigo que, apesar de atitudes que nos desagradassem, não podíamos nos privar, pelo valor de sua amizade e a crença na sua melhoria.
Do contrário, ao menor sinal de fraqueza da pessoa amada, nosso amor material, apaixonado, morre pouco a pouco, até que não se deseje mesmo a presença daquele que até poucos instantes se desejava como cônjuge pela vida eterna.

Vejam bem, não venho dizer que o amor que leva a união dos corpos em comunhão através do sexo seja menos amor do que a amizade, como já disse antes, o amor é um só, penso somente que a amizade é mais refinada e possui mais eternidade em si do que o amor que nos convida a união. Basta relembrarmos o exemplo de Francisco de Assis, que alcançou tal nível de amor que não poderia deixar de amar a tudo que fosse da criação Divina, igualmente amava seus irmãos e irmãs e as aves no céu e as pedras e o próprio ar. Parece descabido demonstrar amor por uma formiga, na nossa condição de gigantes. Mas igualmente acharíamos descabido de Deus, muito maior do que todos os gigantes, que nos ame tanto nós, muito menores do que formigas se comparados a Ele?

Tão bela será a vivência humana quando antes de nos unirmos na comunhão do sexo, desejarmos nos reconhecer na eternidade da amizade. Pois aquele ama, está amante, aquele que é amigo, bem já dissemos, amigo o É. E o verbo, como sabemos, é a pura existência do Criador de todas as coisas, na nossa cultura contada pelos patriarcas hebreus, que nos ensinaram que “no princípio Era o Verbo, e o Verbo era Deus”.






Deus, de todos os seus nomes e sinônimos é, para mim ao menos, simplesmente, o verdadeiro AMIGO. É nossa função vivenciarmos o AMIGO que há em nós e nos encontrarmos com o AMIGO que há em nosso próximo.