Um grande exercício
Falar
do amor mais puro, para mim, é um exercício muito grande. Será como descrever
todas as estrelas do céu, ou mesmo todas as moléculas que compõe a maravilha do
corpo humano num só momento, numa só folha.
Contudo,
corajoso, me entregarei a este esforço, pois ontem li algo que me despertou tal
vontade deste relato. Li assim num livro ficcional, sobre as palavras de
Cristo:
“A
amizade transcende o significado da obrigação e o serviço de um amigo para
outro jamais deve ser qualificado como sacrifício. O Mestre vos ensinou que
sois filhos de Deus. Chamou-vos irmãos. E agora, antes de partir, vos chama seus amigos” (J.
J. Benítez; Operação Cavalo de Troia II)
Apesar
de claramente se tratar de uma ficção, esta afirmação bem casaria com o exemplo
máximo de Jesus, de amor ao próximo, de caridade e de entrega. Durante milênios nos matamos e sofremos em
busca do amor perfeito. Shakespeare e seus dois apaixonados nos ensinaram o
trágico fim de um amor incondicional. Porém se ambos os enamorados se
entregassem a simplicidade da amizade em primeiro lugar ante a paixão fugaz,
teriam certamente encontrado saída melhor e haveria um outro final nessa peça
que a tantos fez chorar.
O amor e suas pseudo-formas.
O
amor, por si só, se converteu sempre no maior dos mistérios humanos. O amor foi
dissecado e separado em partes; converteu-se em amor fraternal, amor materno,
amor Platônico (o mais execrado dos amores e talvez o que mais se aproxime da
perfeição, por princípio). Difícil para mim é compreender que haja formas
diferentes de amor, uma vez que o amor é algo que se sente, não que se entregue
ou se receba, como querem alguns. A própria dor é uma só, mesmo se sentindo de
formas diferentes e de diferentes origens: Dói-se por agressão, por doença, por
ódio e até por amor, mas a dor é uma só. Deveria ser assim com o amor
também.
O
amor é o que se sente, e suas formas são a representação social da relação com
o objeto amado. Fisiologicamente entendemos que o amor está relacionado, no
campo dos neurotransmissores, a três substancias (Ocitocina, Dopamina e
Vasopressina) que são liberados por estímulos ainda inexplicáveis para a
ciência. Diferentemente é a paixão, sinalizada no sistema nervoso central pela
presença de altas concentrações de Feniletilamina e Serotonina, que estão
relacionados a estímulos sensoriais.
O
amor eleva o homem, torna-o melhor. O
amor é abstrato e pessoal, o estímulo para o amor pode ser material ou não
(podemos amar uma ideia, por exemplo). Sob a visão espiritualista, o amor é a
condição permanente do Cristo e, assim sendo, quando o espirito humano se eleva
a esta condição se une à própria essência da Divindade. O amor transcende,
retorna nossa humilde situação de seres materiais e instintivos a nossa origem
Divinal.
“ Agora, pois, permanecem a fé, a esperança
e o amor, estes três; mas o maior destes é o Amor.” (I Coríntios; 13-13)
De tanto ler a belíssima carta de um homem
verdadeiramente amante da criação e da fé, entendo que se a fé e a esperança
nos elevam a proximidade de Deus, o amor nos une inseparavelmente a Ele.
A amizade
e o Verdadeiro amor.
Certo de que o amor é o máximo do sentimento
humano, que poderei dizer da amizade. Não há como fugir da própria etimologia
da palavra, que por si só já descreve todo o significado do que venho demonstrar.
Dentre as origens discutidas, a mais confiável é que tal palavra advenha do vocábulo Latino, Amicus, e deste também é derivado o
verbo “amo” (amar, gostar de). Ser amigo, portanto, é estar no estado de
espírito puro do amor. Quando se ama a algo ou alguém, está-se no momento do
amor, vive-se o estado da união momentânea com o Pai ou mesmo sob a influência
de simples substâncias em nosso sistema nervoso central. Porém quando se é
amigo, este momento transitório se perde e torna-se eterno, porque o amigo não
está amando, o amigo É amigo.
Tamanha ignorância nossa, de tão subordinados
ainda à condição de seres materiais, que elevamos o estado de amante para a
máxima evolução de nossos corações, enquanto relegamos a condição amigos um
estado natural, simples. Mal sabemos que a amizade é, por fim, a evolução do
amor verdadeiro. Basta que observemos o próprio matrimônio (exemplificação
unânime do amor em nossa sociedade) para percebermos que o que diferencia o
amante do amigo são condições que se perdem com o tempo. Observem os esposos
que vivem mais de cinquenta anos em casamento feliz, veremos ali nada de
diferente dos costumes de dois amigos infantis que se reconhecem numa simples
brincadeira de roda.
A falência do amor romântico dá-se pela
destruição do ser idealizado na pessoa amada. Quando desejamos uma mulher ou um
homem, através do instinto e dos costumes aprendidos de nosso inconsciente
coletivo, elaboramos uma figura que se enquadre perfeitamente no modelo que
procuramos. Beleza, caráter, sucesso e riquezas são alguns dos inúmeros fatores
que nos levam a apaixonar primeiramente (lembremos, paixão, do grego, vem de
Pathos, mesma origem do vocábulo Patologia, ou doença). Num segundo momento,
poucas vezes realmente vivenciados, tal paixão se converte em amor quando o
outro corresponde em maioria nossas expectativas ou as supera com novas
condições ainda não experimentadas. Com a amizade não funciona assim. Amigo não
se conhece, se reconhece. É muito difícil descrever o momento exato do inicio
de uma amizade, por sua transcendência, sua eternidade. E mesmo quando há a
separação ou afastamento de um amigo, nunca se desconstrói verdadeiramente o
laço, sempre se espera de um amigo um ato de redenção por qualquer falha. Ao
amigo se perdoa infinitamente mais do que ao enamorado, porque do amante falido
já se esvaíram as paixões materiais, enquanto do amigo sempre existirá o laço
que eterno de união que é a própria amizade.
Somos muito mais tolerantes para com nossos
amigos. Quem nunca teve um amigo que, apesar de atitudes que nos desagradassem,
não podíamos nos privar, pelo valor de sua amizade e a crença na sua melhoria.
Do contrário, ao menor sinal de fraqueza da
pessoa amada, nosso amor material, apaixonado, morre pouco a pouco, até que não
se deseje mesmo a presença daquele que até poucos instantes se desejava como cônjuge
pela vida eterna.
Vejam bem, não venho dizer que o amor que leva a
união dos corpos em comunhão através do sexo seja menos amor do que a amizade,
como já disse antes, o amor é um só, penso somente que a amizade é mais
refinada e possui mais eternidade em si do que o amor que nos convida a união.
Basta relembrarmos o exemplo de Francisco de Assis, que alcançou tal nível de
amor que não poderia deixar de amar a tudo que fosse da criação Divina,
igualmente amava seus irmãos e irmãs e as aves no céu e as pedras e o próprio
ar. Parece descabido demonstrar amor por uma formiga, na nossa condição de
gigantes. Mas igualmente acharíamos descabido de Deus, muito maior do que todos
os gigantes, que nos ame tanto nós, muito menores do que formigas se comparados
a Ele?
Tão bela será a vivência humana quando antes de
nos unirmos na comunhão do sexo, desejarmos nos reconhecer na eternidade da
amizade. Pois aquele ama, está amante, aquele que é amigo, bem já dissemos,
amigo o É. E o verbo, como sabemos, é a pura existência do Criador de todas as
coisas, na nossa cultura contada pelos patriarcas hebreus, que nos ensinaram
que “no princípio Era o Verbo, e o Verbo era Deus”.
Deus, de todos os seus nomes e sinônimos é, para
mim ao menos, simplesmente, o verdadeiro AMIGO. É nossa função vivenciarmos o
AMIGO que há em nós e nos encontrarmos com o AMIGO que há em nosso próximo.