terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O que vivi dos filmes: O Poderoso Chefão.


Saga “O Poderoso Chefão (I, II e III)”

Demorei muito para assistir a todos os filmes, na verdade só vi a segunda parte há alguns meses e a terceira hoje! Tantas lições poderosas nós podemos extrair desta estória maravilhosamente contada, como uma grande ópera, em três atos monumentais. Vou tentar ser breve com o que penso ser o grande tema desta obra. 

Hierarquia é algo importante, porém naturalmente o novo substituirá o velho um dia e, normalmente, esta substituição não se dará de forma serena. É muito difícil abrir mão de algum tipo de poder ou autoridade, por isso todos os sistemas sentem quando suas lideranças perdem um pouco de vitalidade e buscam, por vezes através da “revolução”, um novo caminho. Todo ser humano precisa de um líder, um conselho, um padrinho. Bons líderes são aqueles que sabem a hora de transmitir sua liderança no momento preciso –Vide Vito Corleone e Michael Corleone.

Todo homem deve possuir uma conduta baseada em valores, porém esses valores não podem ter tamanha rigidez que obriguem a atos bárbaros. Por vezes é necessário rever nossos próprios valores em detrimento às atitudes que devemos tomar simplesmente para demonstrar nossa dureza de princípios. Um “rei” extremamente rígido e cegamente justo tende à solidão e abandono.

Um homem de verdade deve ser educado e respeitoso mesmo com seus inimigos. Nosso maior inimigo é a nossa ansiedade e impetuosidade. Analise, ouça os mais sábios e saiba agir como uma lâmina no momento certo. Há momentos em que se deve tomar decisões, normalmente as mais duras e definitivas, com a responsabilidade de nossas consciências somente.

Bem, poderia ficar páginas e páginas aqui, mas não vou me alongar. Uma ultima grande lição – “Todo homem pode ser morto”, ou seja, saiba dialogar e proteger-se, saiba ouvir e defender-se, por ultimo, saiba quando atacar e o faça de uma só vez!

Boa Semana Galera!





Algum dia - e esse dia pode nunca chegar - Eu vou lhe pedir para fazer um serviço para mim. Mas até esse dia, aceite essa justiça, como um presente.
Don Vito Corleone




quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A HISTÓRIA DO AMOR DO SOL E DA LUA


Antes do fim dos tempos
E do inicio de outros tempos
Vivia esta terra sob um único astro
Uma grande estrela de grande potência

O nome deste planeta era Água
Pois era todo cristalino
Com pequenas gotas de terra sobre si
E ali viviam pessoas perfeitas

Vivian nestas gotas de terra duas pessoas
E estes dois seres se fizeram amantes
Num tempo que amor era coisa desnecessária
Amaram muito, como há muito não se amava

E um dia a grande estrela mostrou-se fraca
Os dias da terra chamada Água seriam contados
Reuniram-se então os homens na terra e os Deuses nos céus
Muito pensaram mas não encontraram solução

Guardava o maior dos Deuses um belo segredo
Que era a energia capaz de restaurar o equilíbrio
E fazer ressurgir uma nova vida nesta terra
Que era só agua, mas se acabava em pouco

Foi então que a estrela apagou-se
Não haveria mais folhas, frutos e outras coisas
Não haveria mas vida, só silencio e nada mais
Os viventes nesta esfera não se assustaram

Todas as pessoas eram tão felizes
Tão imensamente perfeitas
Que já não se amavam mais
Sabiam pois de verdades maiores

No meio da noite escura, eterna
Surgiu então uma lágrima
Um choro de dor incompreendido
Eram Adryane e Cesco, os dois amantes

De tanto amarem-se, sofreram
Pois na noite escura temiam morrer
E não poderem mais se tocar se amar
Choraram e louvaram aos Deuses que desconheciam

Foi que então o mundo inteiro sentiu
Uma leve angústia, pois perceberam
Quanto tempo haviam perdido
Em tanta perfeição e ciência, mas sem amor

E todos choraram juntos
E todos louvaram juntos
E juntos seus prantos alcançaram os céus
E tocaram o coração de Deus

Aconteceu então que o Grande criador
Na sua infinita bondade concebeu
Que haveria saída para uma redenção
E propôs ao povo o maior desafio

E o povo recebeu o bálsamo do amor
E todos voltaram a amar tão imensamente
E de gosto entregaram ao Criador em  sacrifício
O amor dos dois maiores amantes

E foi assim que Adryane e Cesco se separaram
E se tornaram dos grandes astros no céu
Equilibraram Mar e Terra e refizeram o balanço das ondas
E sepultaram-se no chão do firmamento

Vivem hoje se amando eternamente
Cesco, o Sol incandescente que clareia o dia
Adryane, a Lua clara e fecunda que abençoa os amantes
E passam os dias procurando-se no rastro do céu infinito

Brila Sol, brilha Lua em seu amor
Em sua procura por um amor antigo
Transmitem amor a todos os viventes
Salve o Sol e salve a Lua, e salve todo o amor.



Vou rodar o mundo, em busca de minha Lua sem saber 
em que por do Sol renascerei. 




quarta-feira, 26 de setembro de 2012

CARTA PARA COSME E DAMIÃO


Prezados Cosme e Damião,

Venho lhes pedir, sem cerimonia, que olhem um pouquinho por nós, os adultos. Não que eu pense que nossas crianças não necessitem do seu auxilio, mas tenho em meu coração o desejo de que seu olhar sereno se volte um tantinho só para esses que por tanto tempo lhes dedicaram as palmas, as brincadeiras e os doces.
Explico-me sem demora. Vejo por aqui na nossa terra certa carência, como um grito contido de choro de menino que ecoa pelos corações tão machucados dos meus irmãos e irmãs. Vejo aflitos os olhos dos homens de barba grossa, como infantes que observam seus brinquedos serem subtraídos de si. Nos homens que andam nas conduções, trens, ônibus e vans, percebo uma solidão calada, uma vontade de interagir, de se olhar e se tocar. Mas esta tal vontade hoje é mantida nas escuras pelas obrigações do mundo moderno: O sucesso, a vitória, o conforto, enfim percebo que o homem para ser considerado “bem sucedido” tem que se furtar de tantas coisas boas que só menino é que sabe. Um “bom dia amigo”, um aperto de mão e um abraço hoje são medidos e matematizados, temos então livro e curso pra tudo, com o objetivo de alcançar o tão sonhado sucesso... Hoje em dia até os risos são planejados, em volume, tom e momento.
E as mulheres, que saudades de quando eram só babadinhos e saias rendadas, de quando sonhavam com um príncipe que só precisava ser encantado. Hoje o príncipe, coitado, tem que ter “currículo”, tem que ser cool, ter bom gosto para carros e vinhos, tem que ser e ter tantas coisas que o príncipe da Branca de Neve se divorciou e hoje mora com um dos sete anões. Dizem que são felizes mas o anão reclama às vezes pois o tal príncipe é "romântico" demais.
Enfim meus Santinhos, eu lhes peço que olhem um pouco por nós, seus eternos amiguinhos. Se muito ocupados, dividam-se (afinal são dois) e acordem nossas crianças, façam-nos novamente de pés descalços, façam brotar do chão a terra batida nas nossas ruas, para que possamos brincar e correr atrás dos seus doces. Cultivem em nossos corações a inocência dos tempos passados, dos tempos em que o amanhã era só curiosidade e alegria. Criem em nossos corações tão cheios de belezas e seduções materiais a antiga ternura dos primeiros beijos, das cartas perfumadas e dos bilhetinhos anônimos das quermesses. Mas se no fim de tudo, perceberem que nossa geração está perdida, façam dos nossos pequeninos homens melhores que nós, que eles possam um dia nos surpreender com a capacidade de amar e de sorrir pelas pequenas coisas, para que possam voltar a servir de presente para as namoradinhas as margaridas dos jardins.

Com muito carinho, de seu sempre amigo, fiel e protegido.




PS.: Se estiverem, aí pelo Céu, com seu primo Cupido, peçam que tenha mais cuidado... OK!

quarta-feira, 20 de junho de 2012

A minha fé


A minha fé. Qual é a minha Fé!

Perguntamo-nos todos os dias sobre o que nos move neste mundo. Queremos crer em algo invisível que justifique nossa moral, nossos medos e nossa eterna dúvida se estamos sós neste mundo e se tudo é só mera equação química que nos torna tão únicos. Creio que devemos fazer sempre o exercício do questionamento. Devemos perguntar a nós mesmos qual a nossa motivação para viver a cada dia. O que procuramos, quais são os nossos objetivos nesta vida.

Eu sou Cristão

Ser Cristão é mais simples do que se pensa, na minha humilde opinião. Porém viver como Cristão é muito mais profundo do que simplesmente crer-se como fiel da fé em Cristo, é mais profundo do que apenas ser crente (aquele que crê). Ser Cristão, creio, é carregar em si a insígnia dos que seguem a Cristo, não basta crer apenas. É necessário envolver-se, transformar-se e permitir-se viver sob os ensinamentos do mestre de Nazaré.  Nunca é simples o caminho dos que escolhem entregar-se ao modus vivendi do Cristo em confronto com as necessidades físicas e sociais da vida humana. Somos almas encarnadas nesta terra, encarceradas nesta maravilhosa criação que é o corpo humano, porém limitados diante das capacidades infindáveis do espírito, nossa natureza única e nossa condição primordial.
Ser Cristão não nos torna melhores simplesmente pela crença na vida e na vitória de Jesus de Nazaré sobre a morte corporal. Ser Cristão nos confere as ferramentas para a transformação íntima que santifica nossas ações diariamente. Uma palavra, um ato, um olhar e, principalmente, um silencio fazem de nós verdadeiros Cristãos.
Ser verdadeiramente Cristão é, finalmente, sobrepor a lei de amor, caridade e fraternidade ensinada pelo Cristo às nossas tendências humanas, o ódio e a procura incessante da satisfação dos nossos desejos materiais. Esses sim, nossos desejos mais animais, são meras ferramentas bioquímicas de manutenção da espécie. Sem a busca pelo prazer erótico ou gustativo, através do sexo e da alimentação, não poderíamos evoluir como espécie, porém agora é hora de mudança, é hora de buscar o Pão da Vida e a fecundidade do Espírito. É hora de descobrir  o que nos define – A procura do sucesso na saciedade de nossas tendências materiais ou a busca da sublime felicidade que advém da percepção do Deus que há em si e em nosso próximo e em tudo que existe.

Sou espírita

          Creio na eternidade da alma, nas infindáveis moradas do Pai. Na vida extracorpórea e na continuidade da vida após a morte material. Creio que somos espíritos encarnados com a finalidade exclusiva da evolução pelo aprendizado. Sinto que o aprendizado se dá, como diria Emmanuel, pela ação do elemento água em nossas vidas, seja pelo suor do trabalho edificante ou pela lágrima inevitável do sofrimento expiador. Ser espírita é muito mais do que simplesmente crer nas encarnações sucessivas ou mesmo na comunicação, através das faculdades mediúnicas, com outros espíritos que se encontrem libertos do plano material. Ser espírita é ter a certeza de que nossas ações e pensamentos se somam no universo de nossas almas, e tudo que pensamos e fazemos torna-se nosso tesouro interior, muito maior do que os tesouros que podemos amealhar nesta curta experiência física que se dá entre o ventre e o túmulo.

Sou Umbandista


                Creio na humildade como a maior demonstração de evolução espiritual. Creio que vivemos acompanhados pelas boas intuições de nossos antepassados. Não posso conceber que todo espirito de Luz apresente-se somente sob a imantação de estereótipos de alta condição social na terra. Creio na luminosidade Divina existente nos sábios Pretos e Pretas Velhas, na capacidade educativa e protetora dos Caboclos das Matas e na pureza e grandiosidade existentes nos sorrisos e nas mãos dos querubins que se apresentam simplesmente como pequeninos mestres, as crianças da beira da praia, das matas e cachoeiras. Sou Umbandista porque acredito na transmutação mágica dos elementos unidos aos pensamentos para o subproduto da Luz, da cura, da paz e da boa sorte. Sou Umbandista porque creio no Karma como lei inevitável, porém não aceito a tristeza e o sofrimento, acendo minhas velas, imunizo-me nas defumações e nas oferendas contra as energias mal trabalhadas do ódio e da inveja, dos espíritos ignorantes do espaço invisível. Sou Umbandista porque procuro acima de tudo a felicidade, através da simplicidade da dança alegre dos camaradas dos sertões ou das gargalhadas dos compadres que nos vem proteger e ensinar o bom caminho através dos revezes da vida humana cotidiana.

Sou Candomblecista


                Sou homem de Axé, porque creio no infinito Deus que é tão grandioso que confere vida a todos os elementos, dando-lhes impulso de vida em todas as suas formas e naturezas materiais. Sou Candomblecista porque creio na existência dos Orixás, Inquices e Voduns como forças inteligentes que mantém o equilíbrio da vida humana e nascem em nós quando somos concebidos pela natureza divida, fazendo parte de nossa própria essência por todas as encarnações que vivemos na terra. Sou crente da fé negra oriunda do coração da humanidade porque creio que podemos nos unir a nossa transcendência, nossa natureza mais pura que é nosso Orixá, através do sagrado ritual do renascimento, de reforma interior e de humildade que é a iniciação do orixá. Sou de Axé porque creio no axé como energia de vida, como força que une os orixás imantados nos elementos da criação e os viventes que desfrutam desses elementos para a manutenção de sua existência material. Sou Candomblecista porque creio na intervenção e na misericórdia dos Orixás, por ordem de Olodumare, nas nossas vidas, fazendo com que sejamos seres que buscam a força do equilíbrio da vida, da saúde, da boa sorte, da fecundidade e da boa colheita. Sou Candomblecista porque procuro a felicidade da simplicidade e do amor fraternal através da alegria de louvar nossos ancestrais e as forças sublimes da natureza.





É tão simples ter fé!

O que você procura? O que você é?

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Manifesto da Simplicidade


Maravilhoso sim, é arroz com feijão, em seu sabor e composição. O arroz é talvez a maior fonte de energia calórica da natureza, os chineses já sabiam disso milhares de anos atrás. O feijão é o retrato do Brasil, fibra, carboidratos e minerais, tudo que precisamos e muito mais ainda de sabor e poesia. Por que só quem já provou o caldo do feijão antes da feijoada sabe o que é saciedade.

Para que tanto desejo? O que te mais agrada é o inesperado. Quem é belo demais não tem tempo para admirar a beleza da criação nas formas simples. Porque combatemos por riquezas e por títulos? Nosso tempo é curto. Um dia e uma vida são muito pouco tempo.

A maior cena de amor que vi nessa vida tinha como personagens um homem e uma mulher em um chão, com jornal e café somente.

Prefiro uma boa história de amor, mesmo até o amor não correspondido, a dez histórias rápidas de conquistas vazias. De que vale simplesmente saborear uma mulher linda e esquecê-la. Marca muito mais no coração a lembrança de um sorriso simples que nos traz a saudade, que nos faz sair à noite pra cantar debaixo de janelas.

Deitados, somos todos do mesmo tamanho. No sono, como na morte, igualamo-nos pobres e ricos e feios e ignorantes e até os sem sucesso nenhum. Sucesso é uma palavra perigosa por comtemplar vários significados, quem só procura o sucesso, não é bem sucedido em nada. Mesmo o homem mais elegante ou a mulher mais linda cagam. Cagar mesmo, é assim que se deve dizer, porque evacuar é coisa de gente doente. Evacuar é fugir, esvaziar, enquanto cagar, esse verbo tão lindo, tem como segundo significado a libertação de uma preocupação desnecessária – Estou cagando.

E para terminar esse simples manifesto, trago uma resposta para aqueles que querem ser enormes e imponentes como o Sol. O Sol, meus caros, é formado em seu volume por 92% de Hidrogênio, assim como o próprio universo todo, e o Hidrogênio, pra quem não sabe, é o elemento mais simples da natureza.

Chego a conclusão de que um amor “feijão com arroz” é o maior sucesso que podemos alcançar nesta breve caminhada que chamamos de vida.


“Porque a vida é um sopro, você nasce e morre, e só.” (Oscar Niemeyer)

terça-feira, 17 de abril de 2012

Da Perfeição das coisas


Nada é perfeito.
Andar por uma rua vazia, quando se quer o silencio para a reflexão é bom. Andar sozinho numa rua cheia quando se quer alguém é solidão. Olhar o pôr-do-sol magnífico quando se viveu o dia é maravilhoso, mas quando a noite reserva momentos de medo, é angustiante. Mergulhar no mar, tem algo melhor do que mergulhar no mar? Sim. Fugir das ondas, quando não se consegue mais bater os braços. Ganhar muito dinheiro é promessa de fartura e alegria, ao menos quando se tem saúde, pois quando não se tem saúde dinheiro não serve de nada. Graduar-se, evoluir na escada do aprendizado é vitorioso, perceber-se cada vez mais ignorante e humilde diante do infinito que é o universo, pode ser humilhante. Amar talvez seja perfeito, visto que mesmo quando não se é amado pode-se continuar amante, porém quando a figura desejada lhe traz decepção, faz-se do amor desamor e isto é proporcionalmente doloroso. Experimentar o prazer e a dor do sexo perfaz um momento perfeito, bobagem para quem está com um único pensamento longe daquele quarto;  ou se constrói a grandiosa penitencia, que finda na impotência ou na náusea, que é o contrário do prazer.
Perfeição é perceber que se andou, e quando se estava só sorriu consigo mesmo e quando junto estava de mãos dadas (ainda que caminhasse com um amigo ou irmão). Perfeição é se ter certeza que o Sol nascerá novamente e novamente cairá, e é opcional vê-lo, ou simplesmente não sabê-lo por que nem todo dia é dia de pôr-do-sol. É perfeito enfrentar o mar e saber deixar-se levar pelas ondas, mais ainda é saber retroceder e recuar ante a grandeza do mar, quando é necessário. Perfeito é saber que o dinheiro ganho foi gasto com saúde, e mesmo sem dinheiro, é perfeito saber que ainda se pode respirar. Como a própria saúde, quando falha é perfeita em nos ensinar lições que o dinheiro não paga. Graduar-se é perfeito quando se sabe que a cada degrau vencido, novos degraus se constroem na nossa eterna escalada, e que o universo é imenso e cabe todo num único grão de areia. Amar é perfeito, e por mais que se apague a figura do ser amado pode-se ainda perceber o calor e a brisa do amor na própria lembrança, fortalecendo o maior amor, que é o perdão sincero. Perfeito é fazer sexo, e ainda que se encontre um dia com a fraqueza ou a saudade, sabe-se que o perfeito do sexo é mais a lembrança do “antes” e do “depois”.

Tudo é perfeito na memória, pois no momento, tudo pode ainda melhorar. 

sábado, 31 de março de 2012

Adeus meu São Jorge!


Hoje meu São Jorge foi embora. Caminhou serenamente pela via inundada de gente e carruagens automotivas aceleradas. Foi-se. Sob o sol de outono morno e humilde, meu cavaleiro deu-me as costas douradas e partiu, rumo a outras aventuras.
Quantas vezes mergulhamos juntos no mar, abençoando-nos. Quantas vezes enfrentamos os sabores e dissabores da vida. Unimo-nos no sangue e no mel de todo o prazer da vida, e nas lágrimas amargas que ela nos traz. Ungimo-nos no suor da batalha do dia a dia e carreguei-o em mim como fiel guerreiro, em minha penosa labuta.
Meu São Jorge dourado, onde estás? Será que caminhas hoje em outras couraças? Ou foste convertido pelo fogo maldoso em outro Santo qualquer. Como pudeste te apartar de mim assim tão serenamente? Cansaste de meu colo e minhas costas, meu grande protetor? Ou mesmo consideras que hoje não pertenço mais a ti como protegido? Sei que hoje vi meu grande amigo ir embora, numa rua ensolarada, tão rapidamente que não pude fazer nada, nada.
Foste forjado para mim, e a mim entregue pelas mãos do mais sincero amor, mas foi embora pelas mãos do roubo, assim como se foi também a própria amada, que num dia ensolarado partiu, e me deixou como única lembrança uma medalha dourada de um santo protetor. 




Que posso dizer agora que não o tenho mais sobre meu coração?
Posso afirmar que o tenho dentro do meu coração!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Ensaio sobre o amor e a amizade


Um grande exercício

Falar do amor mais puro, para mim, é um exercício muito grande. Será como descrever todas as estrelas do céu, ou mesmo todas as moléculas que compõe a maravilha do corpo humano num só momento, numa só folha.

Contudo, corajoso, me entregarei a este esforço, pois ontem li algo que me despertou tal vontade deste relato. Li assim num livro ficcional, sobre as palavras de Cristo:
“A amizade transcende o significado da obrigação e o serviço de um amigo para outro jamais deve ser qualificado como sacrifício. O Mestre vos ensinou que sois filhos de Deus. Chamou-vos irmãos. E agora,  antes de partir, vos chama seus amigos” (J. J. Benítez; Operação Cavalo de Troia II)

Apesar de claramente se tratar de uma ficção, esta afirmação bem casaria com o exemplo máximo de Jesus, de amor ao próximo, de caridade e de entrega.  Durante milênios nos matamos e sofremos em busca do amor perfeito. Shakespeare e seus dois apaixonados nos ensinaram o trágico fim de um amor incondicional. Porém se ambos os enamorados se entregassem a simplicidade da amizade em primeiro lugar ante a paixão fugaz, teriam certamente encontrado saída melhor e haveria um outro final nessa peça que a tantos fez chorar.

O amor e suas pseudo-formas.

O amor, por si só, se converteu sempre no maior dos mistérios humanos. O amor foi dissecado e separado em partes; converteu-se em amor fraternal, amor materno, amor Platônico (o mais execrado dos amores e talvez o que mais se aproxime da perfeição, por princípio). Difícil para mim é compreender que haja formas diferentes de amor, uma vez que o amor é algo que se sente, não que se entregue ou se receba, como querem alguns. A própria dor é uma só, mesmo se sentindo de formas diferentes e de diferentes origens: Dói-se por agressão, por doença, por ódio e até por amor, mas a dor é uma só. Deveria ser assim com o amor também.  

O amor é o que se sente, e suas formas são a representação social da relação com o objeto amado. Fisiologicamente entendemos que o amor está relacionado, no campo dos neurotransmissores, a três substancias (Ocitocina, Dopamina e Vasopressina) que são liberados por estímulos ainda inexplicáveis para a ciência. Diferentemente é a paixão, sinalizada no sistema nervoso central pela presença de altas concentrações de Feniletilamina e Serotonina, que estão relacionados a estímulos sensoriais.

O amor eleva o homem, torna-o melhor.  O amor é abstrato e pessoal, o estímulo para o amor pode ser material ou não (podemos amar uma ideia, por exemplo). Sob a visão espiritualista, o amor é a condição permanente do Cristo e, assim sendo, quando o espirito humano se eleva a esta condição se une à própria essência da Divindade. O amor transcende, retorna nossa humilde situação de seres materiais e instintivos a nossa origem Divinal.

 Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; mas o maior destes é o Amor.” (I Coríntios; 13-13)

De tanto ler a belíssima carta de um homem verdadeiramente amante da criação e da fé, entendo que se a fé e a esperança nos elevam a proximidade de Deus, o amor nos une inseparavelmente a Ele.

A amizade e o Verdadeiro amor.

Certo de que o amor é o máximo do sentimento humano, que poderei dizer da amizade. Não há como fugir da própria etimologia da palavra, que por si só já descreve todo o significado do que venho demonstrar. Dentre as origens discutidas, a mais confiável é que tal palavra  advenha do vocábulo Latino, Amicus, e deste também é derivado o verbo “amo” (amar, gostar de). Ser amigo, portanto, é estar no estado de espírito puro do amor. Quando se ama a algo ou alguém, está-se no momento do amor, vive-se o estado da união momentânea com o Pai ou mesmo sob a influência de simples substâncias em nosso sistema nervoso central. Porém quando se é amigo, este momento transitório se perde e torna-se eterno, porque o amigo não está amando, o amigo É amigo.

Tamanha ignorância nossa, de tão subordinados ainda à condição de seres materiais, que elevamos o estado de amante para a máxima evolução de nossos corações, enquanto relegamos a condição amigos um estado natural, simples. Mal sabemos que a amizade é, por fim, a evolução do amor verdadeiro. Basta que observemos o próprio matrimônio (exemplificação unânime do amor em nossa sociedade) para percebermos que o que diferencia o amante do amigo são condições que se perdem com o tempo. Observem os esposos que vivem mais de cinquenta anos em casamento feliz, veremos ali nada de diferente dos costumes de dois amigos infantis que se reconhecem numa simples brincadeira de roda.

A falência do amor romântico dá-se pela destruição do ser idealizado na pessoa amada. Quando desejamos uma mulher ou um homem, através do instinto e dos costumes aprendidos de nosso inconsciente coletivo, elaboramos uma figura que se enquadre perfeitamente no modelo que procuramos. Beleza, caráter, sucesso e riquezas são alguns dos inúmeros fatores que nos levam a apaixonar primeiramente (lembremos, paixão, do grego, vem de Pathos, mesma origem do vocábulo Patologia, ou doença). Num segundo momento, poucas vezes realmente vivenciados, tal paixão se converte em amor quando o outro corresponde em maioria nossas expectativas ou as supera com novas condições ainda não experimentadas. Com a amizade não funciona assim. Amigo não se conhece, se reconhece. É muito difícil descrever o momento exato do inicio de uma amizade, por sua transcendência, sua eternidade. E mesmo quando há a separação ou afastamento de um amigo, nunca se desconstrói verdadeiramente o laço, sempre se espera de um amigo um ato de redenção por qualquer falha. Ao amigo se perdoa infinitamente mais do que ao enamorado, porque do amante falido já se esvaíram as paixões materiais, enquanto do amigo sempre existirá o laço que eterno de união que é a própria amizade.

Somos muito mais tolerantes para com nossos amigos. Quem nunca teve um amigo que, apesar de atitudes que nos desagradassem, não podíamos nos privar, pelo valor de sua amizade e a crença na sua melhoria.
Do contrário, ao menor sinal de fraqueza da pessoa amada, nosso amor material, apaixonado, morre pouco a pouco, até que não se deseje mesmo a presença daquele que até poucos instantes se desejava como cônjuge pela vida eterna.

Vejam bem, não venho dizer que o amor que leva a união dos corpos em comunhão através do sexo seja menos amor do que a amizade, como já disse antes, o amor é um só, penso somente que a amizade é mais refinada e possui mais eternidade em si do que o amor que nos convida a união. Basta relembrarmos o exemplo de Francisco de Assis, que alcançou tal nível de amor que não poderia deixar de amar a tudo que fosse da criação Divina, igualmente amava seus irmãos e irmãs e as aves no céu e as pedras e o próprio ar. Parece descabido demonstrar amor por uma formiga, na nossa condição de gigantes. Mas igualmente acharíamos descabido de Deus, muito maior do que todos os gigantes, que nos ame tanto nós, muito menores do que formigas se comparados a Ele?

Tão bela será a vivência humana quando antes de nos unirmos na comunhão do sexo, desejarmos nos reconhecer na eternidade da amizade. Pois aquele ama, está amante, aquele que é amigo, bem já dissemos, amigo o É. E o verbo, como sabemos, é a pura existência do Criador de todas as coisas, na nossa cultura contada pelos patriarcas hebreus, que nos ensinaram que “no princípio Era o Verbo, e o Verbo era Deus”.






Deus, de todos os seus nomes e sinônimos é, para mim ao menos, simplesmente, o verdadeiro AMIGO. É nossa função vivenciarmos o AMIGO que há em nós e nos encontrarmos com o AMIGO que há em nosso próximo. 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Adeus meu Tabaqueiro


Hoje toda malandragem se calou por um instante. A Bohemia humilde dos bares ensolarados com suas sinucas de tapete tão gasto parou e até os pássaros das feiras livres não cantaram. Hoje nas matas não se ouvia o brado grandioso dos caboclos de pena e nas senzalas os negros eram só banzo.  Nem mesmo nas praias pode se ouvir os gritos alegres das crianças brincando com suas conchinhas na areia. Hoje a espiritualidade se uniu em humildade e recebeu de braços abertos um homem que na vida humana não alcançou o tão esperado sucesso, mas que viveu com amor pelas pessoas e pela fé na Lei Maior de Umbanda.

“Cadê pinto, eu botô no poleiro... Cadê boi eu botô no curral.
Fui dar uma volta no mundo minha boi, já virou bezerro, minha boi, já virou bezerro.”

     Foi-se um tempo em que nos terreiros viam-se senhores humildes, de toalhas na mão e barricas entre as pernas, senhores que tinham a missão de entoar os cânticos, os pontos e os segredos dos antepassados que ali se apresentariam na forma iconográfica de mentores brasileiros – Eram os tabaqueiros. Os tabaqueiros eram não só responsáveis pela harmonia melódica das cantigas sagradas, eram os que saberiam o momento certo de entoar o ponto exato e para aquele ambiente trazer as energias necessárias para os trabalhos da noite. Curas, desobsessões,  desenvolvimentos espirituais, enfim tudo passava pelas mãos dos tabaqueiros e eu, ainda menino nesta crença de homens antigos, tive a oportunidade de ver um nobre tabaqueiro, disfarçado na irreverencia e alegria de um homem simples.

“No tempo de minha sinhá, uma grande festa se deu, o povo comia do peixe e a espinha do peixe o gato comeu. Orugun, Orugun, Orugun ... quem tem olha grande não olha pra eu.”

                Hoje o meu cantar ficou um pouco mais triste, talvez até o samba, que já é triste por natureza, sinta dentro de si uma saudade inexplicável, porque partiu pro “lado de lá” um verdadeiro sambista, desses que é bamba mesmo no dia-a-dia, na luta do pão de cada dia e na doce cerveja de cada noite. Hoje as mulatas vão sambar mais lentamente, em seu louvor e os passarinhos, os canários e os sabiás de uma só cantiga farão entoadas para lhe levar mais e mais pra cima, pra junto do grande Zambi Maior de quem tanto falava o meu tabaqueiro.

“Oh guia de Deus do céu, quem me guia é a estrela Dalva, e ela há de guiar... Quem deu, quem deu, quem dará? Ela há de guiar!”

                Mas é certo que amanhã será um novo dia, e cantaremos mais e mais . E seremos brindados novamente com as claridades do céu. Porque no céu hoje habita mais uma estrela, junto de tantas outras uma estrela preguiçosa que não se vai e brilha noite e dia, clareando aqueles que batem palmas e dançam, aqueles que louvam ao Deus das criaturas em toda sua criação, nas matas, nas cachoeiras, nas praias e até onde os caminhos se cruzam, nas encruzilhadas. Brilhará cada vez mais a sua estrela, meu tabaqueiro, porque teu atabaque ressoará para sempre nos corações de todos os filhos de fé da nossa Umbanda querida.