Prezados Cosme e Damião,
Venho lhes
pedir, sem cerimonia, que olhem um pouquinho por nós, os adultos. Não que eu
pense que nossas crianças não necessitem do seu auxilio, mas tenho em meu
coração o desejo de que seu olhar sereno se volte um tantinho só para esses que
por tanto tempo lhes dedicaram as palmas, as brincadeiras e os doces.
Explico-me sem
demora. Vejo por aqui na nossa terra certa carência, como um grito contido de
choro de menino que ecoa pelos corações tão machucados dos meus irmãos e irmãs.
Vejo aflitos os olhos dos homens de barba grossa, como infantes que observam
seus brinquedos serem subtraídos de si. Nos homens que andam nas conduções,
trens, ônibus e vans, percebo uma solidão calada, uma vontade de interagir, de
se olhar e se tocar. Mas esta tal vontade hoje é mantida nas escuras pelas
obrigações do mundo moderno: O sucesso, a vitória, o conforto, enfim percebo
que o homem para ser considerado “bem sucedido” tem que se furtar de tantas
coisas boas que só menino é que sabe. Um “bom dia amigo”, um aperto de mão e um
abraço hoje são medidos e matematizados, temos então livro e curso pra tudo,
com o objetivo de alcançar o tão sonhado sucesso... Hoje em dia até os risos
são planejados, em volume, tom e momento.
E as mulheres,
que saudades de quando eram só babadinhos e saias rendadas, de quando sonhavam
com um príncipe que só precisava ser encantado. Hoje o príncipe, coitado, tem
que ter “currículo”, tem que ser cool,
ter bom gosto para carros e vinhos, tem que ser
e ter tantas coisas que o príncipe
da Branca de Neve se divorciou e hoje mora com um dos sete anões. Dizem que são
felizes mas o anão reclama às vezes pois o tal príncipe é "romântico" demais.
Enfim meus
Santinhos, eu lhes peço que olhem um pouco por nós, seus eternos amiguinhos. Se
muito ocupados, dividam-se (afinal são dois) e acordem nossas crianças,
façam-nos novamente de pés descalços, façam brotar do chão a terra batida nas
nossas ruas, para que possamos brincar e correr atrás dos seus doces. Cultivem
em nossos corações a inocência dos tempos passados, dos tempos em que o amanhã
era só curiosidade e alegria. Criem em nossos corações tão cheios de belezas e
seduções materiais a antiga ternura dos primeiros beijos, das cartas perfumadas
e dos bilhetinhos anônimos das quermesses. Mas se no fim de tudo, perceberem
que nossa geração está perdida, façam dos nossos pequeninos homens melhores que
nós, que eles possam um dia nos surpreender com a capacidade de amar e de
sorrir pelas pequenas coisas, para que possam voltar a servir de presente para
as namoradinhas as margaridas dos jardins.
Com muito carinho,
de seu sempre amigo, fiel e protegido.
PS.: Se estiverem, aí pelo Céu, com seu primo Cupido, peçam que tenha mais cuidado... OK!
