quarta-feira, 26 de setembro de 2012

CARTA PARA COSME E DAMIÃO


Prezados Cosme e Damião,

Venho lhes pedir, sem cerimonia, que olhem um pouquinho por nós, os adultos. Não que eu pense que nossas crianças não necessitem do seu auxilio, mas tenho em meu coração o desejo de que seu olhar sereno se volte um tantinho só para esses que por tanto tempo lhes dedicaram as palmas, as brincadeiras e os doces.
Explico-me sem demora. Vejo por aqui na nossa terra certa carência, como um grito contido de choro de menino que ecoa pelos corações tão machucados dos meus irmãos e irmãs. Vejo aflitos os olhos dos homens de barba grossa, como infantes que observam seus brinquedos serem subtraídos de si. Nos homens que andam nas conduções, trens, ônibus e vans, percebo uma solidão calada, uma vontade de interagir, de se olhar e se tocar. Mas esta tal vontade hoje é mantida nas escuras pelas obrigações do mundo moderno: O sucesso, a vitória, o conforto, enfim percebo que o homem para ser considerado “bem sucedido” tem que se furtar de tantas coisas boas que só menino é que sabe. Um “bom dia amigo”, um aperto de mão e um abraço hoje são medidos e matematizados, temos então livro e curso pra tudo, com o objetivo de alcançar o tão sonhado sucesso... Hoje em dia até os risos são planejados, em volume, tom e momento.
E as mulheres, que saudades de quando eram só babadinhos e saias rendadas, de quando sonhavam com um príncipe que só precisava ser encantado. Hoje o príncipe, coitado, tem que ter “currículo”, tem que ser cool, ter bom gosto para carros e vinhos, tem que ser e ter tantas coisas que o príncipe da Branca de Neve se divorciou e hoje mora com um dos sete anões. Dizem que são felizes mas o anão reclama às vezes pois o tal príncipe é "romântico" demais.
Enfim meus Santinhos, eu lhes peço que olhem um pouco por nós, seus eternos amiguinhos. Se muito ocupados, dividam-se (afinal são dois) e acordem nossas crianças, façam-nos novamente de pés descalços, façam brotar do chão a terra batida nas nossas ruas, para que possamos brincar e correr atrás dos seus doces. Cultivem em nossos corações a inocência dos tempos passados, dos tempos em que o amanhã era só curiosidade e alegria. Criem em nossos corações tão cheios de belezas e seduções materiais a antiga ternura dos primeiros beijos, das cartas perfumadas e dos bilhetinhos anônimos das quermesses. Mas se no fim de tudo, perceberem que nossa geração está perdida, façam dos nossos pequeninos homens melhores que nós, que eles possam um dia nos surpreender com a capacidade de amar e de sorrir pelas pequenas coisas, para que possam voltar a servir de presente para as namoradinhas as margaridas dos jardins.

Com muito carinho, de seu sempre amigo, fiel e protegido.




PS.: Se estiverem, aí pelo Céu, com seu primo Cupido, peçam que tenha mais cuidado... OK!