Hoje toda
malandragem se calou por um instante. A Bohemia humilde dos bares ensolarados
com suas sinucas de tapete tão gasto parou e até os pássaros das feiras livres
não cantaram. Hoje nas matas não se ouvia o brado grandioso dos caboclos de
pena e nas senzalas os negros eram só banzo.
Nem mesmo nas praias pode se ouvir os gritos alegres das crianças
brincando com suas conchinhas na areia. Hoje a espiritualidade se uniu em
humildade e recebeu de braços abertos um homem que na vida humana não alcançou
o tão esperado sucesso, mas que viveu com amor pelas pessoas e pela fé na Lei
Maior de Umbanda.
“Cadê pinto, eu botô no poleiro... Cadê boi eu botô no curral.
Fui dar uma volta no mundo minha boi, já virou bezerro, minha boi, já virou bezerro.”
Foi-se um
tempo em que nos terreiros viam-se senhores humildes, de toalhas na mão e
barricas entre as pernas, senhores que tinham a missão de entoar os cânticos,
os pontos e os segredos dos antepassados que ali se apresentariam na forma
iconográfica de mentores brasileiros – Eram os tabaqueiros. Os tabaqueiros eram
não só responsáveis pela harmonia melódica das cantigas sagradas, eram os que
saberiam o momento certo de entoar o ponto exato e para aquele ambiente trazer
as energias necessárias para os trabalhos da noite. Curas, desobsessões, desenvolvimentos espirituais, enfim tudo passava
pelas mãos dos tabaqueiros e eu, ainda menino nesta crença de homens antigos,
tive a oportunidade de ver um nobre tabaqueiro, disfarçado na irreverencia e
alegria de um homem simples.
“No tempo de minha
sinhá, uma grande festa se deu, o povo comia do peixe e a espinha do peixe o
gato comeu. Orugun, Orugun, Orugun ... quem tem olha grande não olha pra eu.”
Hoje
o meu cantar ficou um pouco mais triste, talvez até o samba, que já é triste
por natureza, sinta dentro de si uma saudade inexplicável, porque partiu pro “lado
de lá” um verdadeiro sambista, desses que é bamba mesmo no dia-a-dia, na luta
do pão de cada dia e na doce cerveja de cada noite. Hoje as mulatas vão sambar
mais lentamente, em seu louvor e os passarinhos, os canários e os sabiás de uma
só cantiga farão entoadas para lhe levar mais e mais pra cima, pra junto do
grande Zambi Maior de quem tanto falava o meu tabaqueiro.
“Oh guia de Deus do
céu, quem me guia é a estrela Dalva, e ela há de guiar... Quem deu, quem deu,
quem dará? Ela há de guiar!”
Mas é certo que amanhã será um
novo dia, e cantaremos mais e mais . E seremos brindados novamente com as
claridades do céu. Porque no céu hoje habita mais uma estrela, junto de tantas
outras uma estrela preguiçosa que não se vai e brilha noite e dia, clareando
aqueles que batem palmas e dançam, aqueles que louvam ao Deus das criaturas em
toda sua criação, nas matas, nas cachoeiras, nas praias e até onde os caminhos
se cruzam, nas encruzilhadas. Brilhará cada vez mais a sua estrela, meu
tabaqueiro, porque teu atabaque ressoará para sempre nos corações de todos os
filhos de fé da nossa Umbanda querida.
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